Construtores do Saber Tecnológico
Florestas Plantadas, Celulose e Papel

 


    Edição 2 (Dezembro, 2025):
    Engenheiro silvicultor Ernesto da Silva Reis Goes e sua família de silvicultores (Portugal)

    Em três partes, cada qual com um endereço de web e endereçamentos ao final para integração delas, facilitando acessos

     

               

    Fonte das Imagens: Revista Info@Tecnicelpa nº 31 e arquivos Celso Foelkel

 

Vida e Obra de Ernesto da Silva Reis Goes

Parte I: Biografia de Ernesto Goes

A vida profissional e familiar do silvicultor Ernesto Goes foi repleta de desafios, dos mais diferentes tipos, sendo que muitos deles resultaram em conquistas valiosas para a silvicultura, meio ambiente, sociedade, seus país Portugal e empresas de base florestal e agrícola, que tenham sido auxiliadas por suas escritas, falas, orientações e ensinamentos. Além disso, Ernesto Goes sempre esteve ligado à terra, pelos seus laços familiares, do que resultou que ele teve papel importante na gestão dos ativos patrimoniais florestais da família, e que não eram pequenos. É possível se afirmar, sem sombra de dúvidas, que Ernesto Goes deixou como legado à sociedade um patrimônio de ricos conhecimentos compartilhados e de inestimável valor.

Sua carreira foi híbrida entre o serviço público e a iniciativa privada, entre temas técnicos e temas políticos, entre assuntos de produção florestal e de proteção ambiental, entre assuntos da família e do serviço. Em resumo, uma riqueza enorme em diversidade de tópicos, tipos de decisões e resultados. É de causar surpresa que ele também encontrava tempo e tranquilidade para poder escrever tudo o que produziu na forma escrita, tanto do que se publicou como obras de acesso público como de relatórios internos onde exerceu suas atividades profissionais.

Em termos de vida profissional, afortunadamente, conseguimos o CV – Curriculum vitae do engenheiro Ernesto, enviado pelo seu filho e nosso grande amigo e apoiador desse resgate histórico, engenheiro silvicultor Armando Reis Goes.

Curriculum Vitae - Ernesto Goes:
https://eucalyptus.com.br/artigos/CV_Engenheiro-Silvicultor-Ernesto-Goes.pdf (em Português)

Além dessa rica fonte curricular, uma biografia muito bem elaborada sobre sua vida e carreira foi produzida em 2018 pelo nosso estimado amigo Manuel Gil Mata, para a Revista Folha Informativa Info@Tecnicelpa da Associação Portuguesa dos Técnicos das Indústrias de Celulose e Papel. Essa biografia pode ser encontrada para ser apreciada e admirada em:

Ernesto Goes. Histórias e memórias. Galeria da indústria papeleira portuguesa. Manuel Gil Mata. Revista Folha Informativa Info@Tecnicelpa nº 54: 12 – 21. (2018)
https://eucalyptus.com.br/artigos/2018_Ernesto+Goes+Biografia.pdf (em Português)

Trata-se de um registro biográfico muito amplo, contando sobre as principais realizações do engenheiro Goes, em sua vida profissional e familiar. Importante salientar, que Ernesto Goes mantinha muitos fundamentos botânicos, genéticos, morfológicos e silviculturais quando escrevia sobre os eucaliptos, mas conseguia como poucos fazer a relação entre as árvores, as florestas, as madeiras e as utilizações das florestas, tanto para fins de conservação como para usos rural e industrial. Como ele trabalhou por muitos anos em empresas públicas e privadas, ele conseguiu associar muito bem em sua visão, os distintos aspectos de como pode e deve ser uma floresta plantada para que ela possa ser ao mesmo tempo admirada, entendida, respeitada e aproveitada pela sociedade.

Ernesto Goes deixou como legado, não apenas seus livros e conhecimentos aplicados e compartilhados, mas também exemplos para a sociedade civil e empresarial. Ele também acabou sendo exemplo de carreira profissional para seus filhos e netos, como o engenheiro silvicultor Armando Reis Goes, coautor de um magnífico livro sobre plantações florestais, que também está a ser disponibilizado em nosso website. Outro de seus filhos, Francisco Ernesto graduou-se como engenheiro técnico florestal e o neto Francisco, filho de Oscar Manuel, também é engenheiro florestal, com diversos artigos publicados sobre florestas plantadas. Enfim, o exemplo florestal se propagou e frutificou com sucessos.

Tomei, eu mesmo, a liberdade de redigir um apanhado biográfico sobre alguns dos principais dados do Ernesto Goes, colhidos no documento de Manuel Gil Mata, em informações do seu filho Armando Goes e em diversas referências encontradas sobre ele na literatura global e em seu currículo acima relacionado.

Tenho assim muito orgulho e emoção em compartilhar com vocês essas escritas acerca da vida e do muito realizou o engenheiro Ernesto da Silva Reis Goes:

Ernesto da Silva Reis Goes nasceu no sul de Portugal, na cidade de Faro, no Algarve, em 1917. Era filho de uma família em adequada situação econômica e com íntima relação com a terra e a agricultura. A família de sua mãe possuía extensas áreas de terra no concelho de Odemira (distrito de Beja) e o pai era sócio de moinhos para processamento de cereais. Interessante relatar, que diversos dos seus parentes vieram mais tarde a plantar eucaliptos em suas terras, pelo interesse e reconhecimento dos benefícios que essa cultura lhes oferecia.

Ernesto realizou seus estudos fundamentais no Faro. Em 1934, a família precisou, por razões políticas, “mudar de ares”, já que seu pai não mostrava simpatias pelo regime ditatorial que imperava na época em Portugal. Resultado disso, Ernesto se mudou para Lisboa, onde terminou estudos do liceu fundamental e começou seus estudos, pouco tempo depois (1937) no ISA – Instituto Superior de Agronomia, da Universidade Técnica de Lisboa. A carreira escolhida foi exatamente a graduação em engenheiro silvicultor, profissão que veio a desempenhar com grande sucesso, criatividade e inúmeras realizações em benefício de Portugal e da sociedade portuguesa.

Após a formatura em 1942, iniciou a carreira no serviço público, atuando como pesquisador em pragas florestais no Laboratório de Biologia Florestal da DSFA - Direcção de Serviços Florestais e Aquícolas. Nos primeiros anos de seus serviços, elaborou estudos, filmes e realizou publicações tanto em pragas como em outros temas florestais mais genéricos.

A partir de 1949, a Secretaria da Agricultura introduziu uma diretriz forçando a que os seus técnicos e pesquisadores também tivessem atuação em atividades práticas a campo. Isso levou Ernesto a mergulhar em atividades florestais para ajudar o desenvolvimento das operações silviculturais e a produtividade/rentabilidade para os agricultores. Uma das principais descobertas de Ernesto nessa época foi a de observar o potencial enorme que os eucaliptos possuíam para serem plantados em regiões degradadas no sul do país.

A partir de 1951, com o melhor conhecimento sobre a eucaliptocultura, ele passou a se esforçar para promover os eucaliptos, como uma forma de garantir a sustentabilidade da capacidade produtiva dessas terras erodidas, que estavam em processo de degradação e perda de produtividade.

Os eucaliptos não eram recentes em Portugal, sua introdução remonta a meados dos anos 1800’s. Na época do início do Ernesto silvicultor, já existiam arboretos e árvores de dimensões bastante avantajadas, ao que se denominava de árvores monumentais de eucaliptos, denominação que acabou se perpetuando.

Uma das orientações seguidas pelo silvicultor Ernesto foi a de selecionar espécies, produzir sementes e mudas em viveiros adequados, ou seja, as boas florestas se iniciariam nas mudas e em seus plantios. Instalou arboretos experimentais, procurou conhecer e estudar as espécies mais adequadas e os fatores de produtividade e ambientais da atividade. Entre 1953 e 1957, empreendeu-se na criação de um arboreto bastante completo de eucaliptos na Mata Nacional do Escaraoupim, no concelho de Salvaterra de Magos (https://myplanet.pt/um-passeio-com-cheiro-a-eucalipto/). Ali, foram implantadas mais de 120 espécies para estudos desse gênero de árvores. Tornando-se um dos arboretos de eucalipto mais completos do mundo.

A partir daí, Ernesto passou a estudar os eucaliptos com paixão, escrevendo artigos, livros, chaves de identificação de espécies, orientações técnicas, avaliações de valor econômico de plantações, utilizações para as madeiras produzidas, mitigação de efeitos ambientais adversos etc. Praticamente, ele se dedicou tanto à silvicultura, como ao melhoramento florestal na busca de otimizar os resultados da eucaliptocultura. Tudo com a finalidade de orientar a que essa atividade florestal se desenvolvesse bem no país.

Com a finalidade de promover o desenvolvimento das plantações de eucalipto com a requerida qualidade, Goes recebeu autorização da DSFA para atuar como consultor a proprietários rurais que desejassem plantar eucaliptos e a empresas industriais, como a Socel – Sociedade Industrial de Celulose, em tempo parcial.

Como resultado, diversas plantações públicas e privadas foram implantadas, formando assim um mosaico agroflorestal interessante dentro de planejamentos do uso da terra que se criava para as principais bacias hidrográficas de Portugal.

Para ampliar as fronteiras do conhecimento, Goes buscou conhecer outros exemplos de sucesso dos eucaliptos, realizando viagens de estudos para França, Marrocos, Espanha, Itália, Angola, e mais tarde, ao Brasil. Participou também de eventos internacionais da FAO (World Eucalyptus Conferences) e outras instituições para divulgar os resultados dos eucaliptos plantados em Portugal. Dessa forma, esteve ainda na Romênia, Suécia, Iugoslávia, Suíça etc.

Historicamente, a eucaliptocultura portuguesa passou a ser alavancada a partir dos anos 1950’s, quando a fábrica de celulose Cacia (CPC – Companhia Portuguesa de Celulose), na região de Aveiro, foi inaugurada em 1953 e encontrou problemas com a madeira de Pinus pinaster, inicialmente selecionada para abastecer as operações. Disso resultou a troca da matéria-prima para a madeira de Eucalyptus globulus, impulsionando esse tipo de plantações ao norte do Tejo a partir de 1955. Obviamente, um grande consumidor surgindo e com sucesso comercial acabou por oportunizar aos eucaliptos o impulso que se necessitava em Portugal.

Ernesto Goes foi chamado a oferecer serviços técnicos para essa expansão, ajudando a definir os tipos de eucaliptos para celulose e papel, as formas de produção e as adequações a solos e climas.

Com tantas descobertas e tantos estudos, o inevitável viria a acontecer para uma pessoa talentosa e altruísta como ele. Em 1960, Ernesto publica uma de suas primeiras grandes obras-primas, o livro “Os eucaliptos em Portugal. Volume I: Identificação e monografia de 90 espécies”.

A partir daí, a produção florestal com eucaliptos se reestruturou e se difundiu em Portugal, desde o sul do Tejo até a região ligeiramente acima de Coimbra, ao norte do Tejo. Surgiram zoneamentos agroflorestais, planejamentos para uso melhor da terra e práticas silviculturais modernizadas.

Nessas épocas, Portugal também passou a se interessar em levar as plantações de eucaliptos para os países do antigo Além-mar, como Angola e Moçambique, o que ampliou os estudos de Ernesto Goes para territórios fora de Portugal continental.

Inclusive, pouco mais tarde, meados dos anos 1960’s, quando a empresa sueca Billerud decidiu investir em uma fábrica na região de Beira Interior (Celbi), Ernesto Goes, mais uma vez foi chamado para colaborar para o planejamento das atividades florestais com os eucaliptos.

Entre 1965 e 1976 atuou profissionalmente de forma híbrida, desempenhando funções tanto da DSFA (empresa pública) e Socel – Sociedade Industrial de Celulose (empresa privada). Nessa última, atuou como diretor do Departamento de Cultivo e Exploração Florestal.

Em 1976, em função das mudanças estruturais que passaram a ocorrer em Portugal, depois da revolução de abril de 1974, foi constituída a Portucel – Empresa de Celulose e Papel de Portugal, como resultado do processo de nacionalização dentro da indústria de celulose portuguesa. Resultante dessas fusões, as antigas CPC – Companhia Portuguesa de Celulose (fábrica de Cacia) e a Socel – Sociedade Industrial de Celulose (fábrica de Setúbal) acabaram se consolidando na constituição da Portucel.

Em 1977, Goes foi licenciando de suas atividades em empresa pública (DSFA), para passar a atuar somente na iniciativa privada, recebendo uma oportunidade que foi mais uma parceria do que um emprego. Tornou-se Diretor do Centro de Produção Florestal da principal empresa de celulose e papel do país, a Portucel, sendo que a empresa lhe forneceu inúmeras oportunidades de estudos e de implantações de suas ideias e conceitos tecnológicos. Sob a égide da Portucel, Ernesto Goes conseguiu a publicação de diversos de seus principais livros entre 1977 e 1991, sendo algumas de suas obras disponibilizadas nesse website.

Já no início de suas atividades na Portucel, passaram a surgir estudos sobre a clonagem dos eucaliptos, realizados no Brasil pela empresa Aracruz Celulose e pelo IPEF (Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais), que envolviam também a participação de pesquisadores da França e do Congo (CIRAD - Centre de Coopération Internationale en Recherche Agronomique pour le Développement). Ernesto Goes viajou ao Brasil e ali visitou a Aracruz Celulose, o IPEF, o Horto de Rio Claro, a Riocell e a Champion Celulose. No retorno a Portugal, Goes procurou incluir em seus estudos a clonagem com o Eucalyptus globulus. Entretanto, a espécie globulus se mostrou bem mais difícil de ser propagada vegetativamente por clonagem, o que acabou atrasando esse desenvolvimento em Portugal. Vencidas essas dificuldades iniciais, a clonagem com o E. globulus passou a ser uma realidade e o Raiz (Instituto de Investigação da Floresta e do Papel) procurou homenagear Ernesto Goes, dando o nome de Goes a um de seus principais clones de elite (ano 2000).

Em 1984, com 67 anos de idade, Goes decidiu que já estava no momento de retornar às origens e decidiu voltar ao serviço público, a fim de poder se aposentar através serviço público. Nesse retorno, passou a atuar como Diretor do Departamento de Silvicultura da Estação Florestal Nacional. Com isso, conseguiu voltar a realizar ações de pesquisas científicas e tecnológicas, a escrever mais obras para difusão de seus conhecimentos à sociedade. Continuou, como sempre, a receber o apoio da Portucel, sua constante apoiadora para a consolidação dos esforços de compartilhar conhecimentos sobre os eucaliptos para a sociedade.

Em abril de 1987, Ernesto Goes se aposentaria, mas não parou de produzir suas escritas. Em 1991, lançou uma de suas obras mais importantes, com uma belíssima edição apoiada pela Portucel. O livro “A floresta portuguesa. Sua importância e descrição das espécies de maior interesse” viria a coroar sua dedicação em benefício da silvicultura e das florestas de Portugal.

Por outro lado, importante saber ainda que Ernesto mantinha um interesse e uma curiosidade especial pelo Arquipélago dos Açores, frente ao fato que seu sogro era açoriano. Em função disso, depois de várias viagens ao Açores, algumas feitas com a finalidade de inventariar árvores monumentais, ele consegue publicar, em 1994, o livro “Dragoeiros dos Açores”, cuja edição em papel foi na verdade foi uma espécie de agradecimento da comunidade açoriana aos estudos de Goes na ilha.


Ao longo de sua longa vida, Ernesto Goes foi homenageado dezenas de vezes, recebendo comendas, medalhas e honrarias diversas: formas de agradecimento oferecidas pela sociedade e por seus admiradores, em função de suas muitas conquistas. Em 1990, Goes foi homenageado como sócio honorário da Tecnicelpa – Associação Portuguesa dos Técnicos das Indústrias de Celulose e Papel, nossa parceria para a elaboração desse resgate da vida e obra de Ernesto Goes.

Vida familiar e pessoal:

Ernesto Goes foi casado com Maria José de Sousa Narciso Goes, sendo que tiveram quatro filhos (Oscar Manuel, advogado; Armando, engenheiro silvicultor; Francisco Ernesto, engenheiro técnico florestal; Maria José, médica). A um deles, ao engenheiro silvicultor Armando Reis Goes, dedico um agradecimento especial pelo apoio e entusiasmada ajuda para a criação desse documento de resgate histórico sobre seu saudoso pai. E aos demais filhos, pelo apoio à essa minha iniciativa de valorizar o papel do pai Ernesto em benefício da sociedade, meio ambiente e economia portuguesa.

Tomei a liberdade de perguntar ao Armando Goes se a vida de seu pai era apenas trabalho e a resposta foi surpreendente. Ernesto tinha diversas habilidades atléticas. Foi jogador de futebol em clubes como o Agronomia e Belenenses, praticava e jogava tênis, no atletismo saltava altura. E como diversão, gostava de jogar bilhar. Em tudo que fazia, atingia um nível bastante bom de desempenho. Já com a família, gostava muito de viajar com todos, aproveitando os momentos juntos para desfrutarem novos lugares e paisagens.

Em resumo, o engenheiro silvicultor Ernesto da Silva Reis Goes foi muito mais que um homem apaixonado pelos eucaliptos. Foi uma pessoa com múltiplas atividades, profissionais, humanísticas e familiares, ganhando o reconhecimento mundial por seus predicados técnicos, sua dedicação às causas em que acreditava, seus feitos e pelo comportamento ético e entusiasmado. Tanto que diversos de seus familiares acabaram também seguindo o pai nas atividades florestais.

Em maio de 2010, Ernesto Goes veio a falecer, deixando um legado florestal não apenas para Portugal, mas para o mundo”.



Essa possibilidade de acesso público e gratuito às obras de Ernesto Goes só se tornou possível graças à parceria entre:

        NAVIGATOR   

E à colaboração voluntária de um de seus filhos, o engenheiro silvicultor Armando Reis Goes


   


Não se esqueçam de visitar as outras duas páginas relacionadas a essa:

https://celso-foelkel.com.br/Engenheiro-Silvicultor-Ernesto-Goes-Construtores-Saber-Tecnologico.html (Introdutória e com a disponibilização de obras)

e

https://celso-foelkel.com.br/Familiares-silvicultores-Ernesto-Goes.html (Familiares silvicultores de Ernesto Goes)